segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Pizza Talk!

Quando eu estava na minha faculdade (no Rio), volta e meia tinha uns intercambistas que caíam de paraquedas nas minhas aulas. Americanos, franceses, espanhóis e indianos(!), a certeza era uma só: aqueles caras estavam mais perdidos que cebola em salada de fruta! Afinal, a língua portuguesa não é o mais acolhedor dos idiomas e a maioria dos gringos chega ao Brasil sabendo falar “Caipirinha, Por Favor” e acham que estão prontos para fazer faculdade (apesar de alguns professores da Poli falarem uma língua estranha até pra mim)...
Enfim, como a minha excelentíssima turma perdoa menos que a milícia do Rio, era um desfile de piadinhas e apelidos: “Ih, Lucas, aquele indiano parece contigo hein!”, “Olha o Movido a Maconha tirando a sonequinha de quinta-feira”, “Porra, o francês veio de camisa social e samba-canção?!” e etc. Até montagens eram feitas pelos mais bobos, como a que segue abaixo, com o meu “clone” indiano cochilando na aula...



Essa introdução foi simplesmente pra tentar explicar o que eu senti quando percebi que eu ia trocar de lado (do intercambio, calma...)! Agora eu é que ia virar o estereotipo ambulante, alvo de piadinhas alemãs que eu nem conseguiria entender... E se tivesse um Bruninho alemão pra ficar me imitando toda vez que eu virasse as costas e fazendo montagem de mim!?
Tentando evitar essa agradável perspectiva, era o mínimo que eu poderia fazer. Logo, na primeira semana de aula, descobri onde era cada sala, tentei dormir bem durante a noite e prestei bastante atenção pra ver se eu conseguia entender tudo... Entretanto, esqueci de contar com a minha boa sorte de sempre!
Segue o relato da derrota: Acordei cedo, tomei banho (sou brasileiro porra!) e café, e parti pra faculdade, pra assistir a minha primeira matéria (Integrierte Human Resources). Número da sala e do prédio anotados no livretinho, não seria difícil encontrar o local da aula. Cheguei pontualmente na sala, que já estava um pouco cheia, e tomei um dos poucos lugares que sobravam. Me desfaço dos casacos e tomo um tempo pra analisar o ambiente.
Ao contrário de uma sala comum, aquela ali era meio diferente. As cadeiras estavam dispostas em volta de uma mesa grande, e havia um quadro em uma das paredes, mas não parecia que aquele quadro ia ser o foco da aula, já que a metade das pessoas se sentavam de costas pra ele. Olho pra essa disposição e pressinto o pior (que seria ótimo se eu soubesse o que estava por fim...): essa matéria é uma matéria de discussão e debate. Me amaldiçoo por não ter prestado atenção na ementa e começo a procurar na internet do meu celular a descrição da matéria para ver se eu encontro algo sobre aquela joça. Enquanto isso, reparo que todos estão engajados em uma conversa muito interessante sobre PIZZA. Não dou muita atenção a isso, já que reparo que todos estão falando muito bem e sem sotaque (Ótimo, único aluno estrangeiro numa matéria de debate!), e volto minha atenção para o celular. Durante uns 10 minutos (que o professor não havia chegado [ou chego, sempre esqueço qual é qual]), tento desvendar onde da ementa de Integrierte Human Resources diz que a matéria é debate, e não encontro nenhuma menção a isso. (Muito estranho, mas...)
Resolvo prestar atenção na conversa de novo: Eles continuam falando sobre PIZZA! Quando começaram estavam falando dos melhores deliverys de Stuttgart (ok, um bate-papo comum antes do prof chegar), e enquanto eu estava no celular, vislumbrei momentos nos quais o assunto passeou por molhos (estranho), tipos de massa (muito estranho), melhores formas de cortar a pizza (que porra é essa?) e até diálogos entre um cliente e uma atendente de delivery (ok, tem algo errado).
E TODOS PARTICIPANDO DA CONVERSA AVIDAMENTE COMO SE ESTIVESSEM DEBRUÇADOS SOBRE O DIÁRIO DE NIETZCHE!


Por alguns minutos, me concentrei ao máximo pra tentar entender tudo que a galera estava falando, motivado pela sombria anedótica de que a Pizza ali era uma METÁFORA de Recursos Humanos (acho que aí ultrapassei o limite entre inocência e burrice...). Estreito os olhos para cada um que toma a palavra, até que meu olhar cruza com o da garota mais bonitinha que estava ali (que eu tinha reparado desde que eu cheguei), e eu rapidamente tento trocar o meu olhar de “QUE PORRA É ESSA” para “HMM QUE INTERESSANTE HEIN”, mas foi tarde demais. A maldita (bonitinha) pede a palavra, olha pra mim e pergunta em voz alta (já que ela, obviamente, estava do outro lado da sala):
-Você é novo aqui no grupo?
Sabe aqueles momentos que um negro fica vermelho? Taí.
“-Não, só estou fazendo hora para a minha aula – E sair da sala”
Isso é o que eu deveria ter feito. Mas CLARO que eu preferi outra abordagem...
-Ehh... Eu não tenho certeza, mas provavelmente não... Aqui é a aula de Integrierte Human Resources?
Mas eu já sabia a resposta. A bonitinha me olhou com uma mistura de pena e divertimento, e disse um simples “Nein”, que quase eu não pude ouvir pelas gargalhadas que o antecederam...
Recolhendo meu material e meus casacos o mais rápido que eu pude, e deixando para trás a minha dignidade, tentei sair rapidamente da sala em silêncio, mas pensei então: “Pisou na merda, abre os dedos, rapá!”, já virei a porra do estereótipo mesmo, se vou sair daqui então vou sair com uma piadinha (sem graça):


-Bem que eu achei que Pizza era uma péssima metáfora para se usar em Recursos Humanos.
O som dos aplausos/gargalhadas só cessaram com a porta fechada. Mal consegui perceber que estava na sala 11.80.2 ao invés da sala 11.82 (maldição!). Cheguei a tempo de receber uma cara feia do professor por chegar 20 minutos atrasados, e descobrir que eu ia aprender mais sobre Recursos Humanos na discussão da Pizza do que naquela aula...

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